A sério, mesmo, só uma criança a brincar
Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006
Névoa

Na pior das hipóteses um castelo. Paredes grossas, resistentes, perenes. Pensamento claramente estático e impassível. Capacidade de previsão inútil a longo prazo. Imponente como um sonho, penoso como um pesadelo. Cheio de palavras e inconsciente dos perigos.

Na pior das hipóteses um castelo. Tinha que ter dito as coisas certas como quem põe pedra sobre pedra. Uma ilusão que dure o tempo de se formar cristal. A palavra chega então definitiva, pura das limalhas, forma perfeita para rolar sobre o chão liso.

Havia um perfume para os gestos. Para que nada soasse a falso e para que os dedos se adaptassem sem esforço ao teclado. Batem leve, levemente, os dedos. De cada som inútil saem imperfeições acústicas a custo zero. É apenas um ensaio. Na pior das hipóteses um castelo.

No olhar para a violência dos espaços formam-se humidades relativas que limitam a clareza e isolam o pensamento. A limpidez que havia sido estimada pelas estatísticas sofisticadas, embrumou-se na berma sensível da emoção. Na pior das hipóteses um castelo.

Toquei ontem com dedos hesitantes a lua. Pendente no bolso esquerdo da sobre-casaca, um fio de linho trouxe do passado o pormenor da divindade. Todos os dias defino a prudência como lei. Todos os dias crio novos deuses. Todos os dias renego a fé.

Sobre a mesa a chávena fumega restos de café. No hálito o sabor já é uma saudade. O que ainda está à vista já não é. Do espaço chegam imagens de astros como eram há milhares de anos. Os fotões viajaram anos-luz sem se esquecerem de onde vinham, um trajecto de infinita solidão na esperança de encontrar um olhar. O que me chega já não é, e tento acreditar que a luz fiel não me mente.

A divindade pergunta: que mais faz? Porque será uma ilusão melhor do que outra? Porquê tomar partido entre dois valores igualmente submissos?

É assim que decorre diligente o tempo dos afectos: chamando milagre à ilusão e nomeando ilusão a verdade. Por aproximações sucessivas. Por afastamentos meticulosos. O fio de linho a quebrar-se aqui e a enrolar-se ali sem convicção nem empenho, sem valor nem rendimento.

Na pior das hipóteses um castelo. Irredutível e veemente. Arremedo de vitória, conspiração telúrica, formalismo, puro formalismo.

Mas, contraditório, vem o desejo difamar a presunção e reduzir a pó as retenções na fonte. Movimento larvar da história a configurar os genes para oscilarem permanentemente entre o dever e o haver.


Prólogo



publicado por prólogo às 22:08
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2 comentários:
De somedaysomeway a 5 de Dezembro de 2006 às 22:47
Deveras interessante, num místico: de querer/não querer; ir/não ir; fazer/não fazer; ter/não ter...
Bom, não me chamem louca.
Mas após a leitura do texto, brilhante por certo, ocorreu-me dizer algo e foi isto que saiu, sorry!


De prólogo a 12 de Dezembro de 2006 às 20:01
Sea.Sky, nem por um momento me demoro no misticismo. Interessam-me as palavras e as pessoas, tudo o resto vem por acréscimo e tem pouca importância. A dualidade dos opostos é a nossa própria natureza de construirmos umas coisas sobre as outras.


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