A sério, mesmo, só uma criança a brincar
Terça-feira, 8 de Novembro de 2005
Metapoema óbvio
Carstanova3.jpg Carstanova

Ontem à tarde era para ser verdade o teu rosto.
Estava escrito assim no desejo e eu acreditei.
Houve ainda um gesto intenso, um impulso, o susto de um momento.
Ligeiro tom da inocência que desarticula o tempo.

    Não é justo que haja o óbvio num poema.
    E ainda menos a evidência.
    Há-de haver emoção, ambiguidade, ironia e desdém.
    Mas não há-de ser óbvio nem evidente.

Sabias então mais do que dizias.
Ou sabias mas não sabias que sabias.
Caía do teu hábito a ilusão sintomática do não ser.
E o olhar estava ausente como o fogo.

    Num poema uma lua nunca é a lua.
    O tigre é sempre outra coisa que não um tigre.
    O que se mostra é o que se quer ocultar.
    O que se ouve é apenas o desvio da voz.

Atrás do gesto e da franqueza.
Da regular imensidão das possibilidades.
Deixaste uma sombra uma dor e um voo.
Uma mentira deformada pela vontade.

    O poema nasce no interior das meninges.
    Espremidas pela angústia, pelo medo, pela emoção.
    Nasce contra tudo e contra todos.
    À espera de conseguir dizer o indizível.

Não cheguei a saber o que querias.
Tal como não percebi o meu desejo.
O estalo inglório dos meus sentidos.
Perdeu-se em vagarosos movimentos de recuo.

    Cada verso que se expõe à voz do mundo
    Perde o dono, a identidade, o ser e a intenção.
    Passa a ser uma coisa nova em cada boca.
    E se assim não for não é bem, nem é verdade.

Não sei que vi em ti que me domou.
E por isso me fiz macabro tigre da indiferença.
Subi a mais alta plataforma das certezas.
À procura de uma trágica lua, solta e inundada.

    Envolto em panos que revelam escondendo,
    Oculto recheado de evidências,
    Mentira quase certa na intenção,
    Prazo acabado do saber e do sonho,
    Momento interminável de prazer doloroso,
    Sombra luminosa de destino ocasional,
    Tudo é óbvio menos tu.

Prólogo


publicado por prólogo às 22:27
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3 comentários:
De Anónimo a 29 de Novembro de 2005 às 18:26
Prólogo, tu que és maratonista na escrita não queres vir ter connosco?
Mas escreve curto! ;)Palavras em Linha
(http://www.homensonline.blogspot.com)
(mailto:palavrinhas@hotmail.com)


De Anónimo a 23 de Novembro de 2005 às 18:10
Devias ter dito: quantas gralhas num texto...mas foste generoso ;)

A beleza está aqui!
gostei do poema! E da imagem, tb!

bjomariaheli
(http://www.amor-e-ocio.blogspot.com)
(mailto:mariaheli07@hotmail.com)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2005 às 00:41
Sempre. A cada um a sua leitura e os panos estão por cima da intenção. Gostei muito desta impossibilidade de desvendar.palavras em linha
(http://www.osentidodaspalavras.blogspot.com)
(mailto:palavrinhas@hotmail.com)


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